segunda-feira, 23 de setembro de 2013

[Willian à Thiago] O Chá

         Às sendas da metáfora me convida um prezado colega, ao que com prazer respondo, pois quão propicio não o é este primeiro caminho a qual me chama, porquanto exatamente em tais termos vislumbrei-nos quando de sua salutar proposta para que devaneássemos em debates sobre os temas mais diversos. Fazendo-me claro, ocorre que me ensejara tal proposta, urge que se diga, o evocar de certa passagem presente numa belíssima produção cinematográfica chinesa, que com toda a poesia do gênero literário chamado Wuxia, retrata o tema que ouso perscrutar em meus estudos históricos: O imperialismo na Ásia do século XIX. Na cena em questão, da tocante obra de nome Fearless, respectivamente, defendendo sua cultura então sob dominação, e representando as nações invasoras do desventurado Império Celeste, um Chinês e um Japonês, prestes a se enfrentarem em competição marcial, permitem-se, antes de tudo, um cordial e contemplativo diálogo. Durante a conversa, o nipônico debocha de seu simplório interlocutor em relação a sua incapacidade de diferenciar o chá que bebiam; algo a que este replica, não sem influência de pensamentos budistas, dizendo: “O chá não diferencia o chá! Os homens o fazem.” Nesta lógica, as reflexões continuam e culminam na consideração de que não haveria, portanto, também diferenciação entre os estilos de artes marciais. Indagado, então, pelo japonês, sobre o porquê das constantes e habituais lutas daquele contexto, a resposta do mestre chinês é mais uma vez eloquente em sua simplicidade: As lutas ocorreriam “para descobrirmos a nós mesmos”

Posto isto, meu caro Thiago, eis a nós, diria eu, um século depois, na linha de cá do limiar da ficção, mas na mesma mesa, que agora opõe, por sua vez, um materialista dialético e um errante de inclinações romântico-pós-modernas, bebendo, contudo, do mesmo chá (com o devido perdão da profanação que tal bebida de tão pouco grau etílico possa representar ao adjetivo que qualifica o título deste domínio virtual). É por tal imagem, a qual tão logo me veio em mente, que digo ter pensado em termos metafóricos diante de seu convite. Agora, retribuindo-o, o convido a refletir sobre as ideias por detrás dela, porquanto, não pude imaginar algo mais adequado que sua analogia para iniciar nosso pequeno colóquio; afinal, haveria posicionamento teórico superior?

Gosto de pensar (com certo pendor relativista, admito) que não, e que nesse sentido, os embates intelectuais nos quais se fundam o conhecimento – e por extensão o próprio saber – não são senão formas de descobrirmos a nós mesmos.  E a razão disso é deveras flagrante na própria natureza do chá a compartilharmos, que, como nos lembrara o sábio chinês, não julga a si próprio. Ora, estendendo a questão, haveriam as coisas em si de se diferenciarem? Esta é uma pergunta que frequentemente me assalta. Com muito pouco conhecimento de causa, costumo conceber que o mundo não deva passar do mesmo elemento simplesmente existindo como um todo, de átomos vibrando em subdivisões infinitas e – o que percebemos como – padrões de ligações que no final faz com que tudo seja uno em sua diversidade; uma totalidade que somente quando experimentada por nós e decodificado pela linguagem associativa de nossos sentidos assume algum significado. E por significado, recapitulando lições de linguística, sabemos que falamos inevitavelmente de associações, as quais se fundam em similaridades e diferenças. Parece-me, portanto, arriscando-me a dizer grandes besteiras, que o entendimento deste mundo, em suma apenas uma grande vibração interligada, está baseado na identificação de grandes fatores coesivos e diferenciativos dentro das sensações que experimentamos, fatores estes que vão separar em partes uma totalidade que em si e por si não se diferencia.

Assim sendo, consciente ou inconscientemente, o simples e natural ato de viver, experimentar e significar o númeno não seria criar “formas”, enquanto unidades coesivas quais propostas por Norberto Guarinello para os grandes contextos temporais? Dada ainda a natureza associativa deste processo, não trabalharia qualquer significação com uma linguagem metafórica? Destarte, por mais pretensiosa que seja a ciência em seus tecnicismos e rigores, como poderia ela estar alheia a isso? Tendo já me estendido em divagações por demais abstratas, concluo: Será mesmo que precisamos esperar nos tornarmos clássicos para fazermos uso do artifício metafórico, ou, sem percebermos, a metáfora não seria conditio sine qua non do próprio conhecimento?

Considerando a hipótese, mostre-me as suas, meu caro, suas metáforas e significações deste mundo; prossigamos e as comparemos com as minhas neste profícuo e prazeroso embate antropológico fundado – qual nas lides marciais de outrora – no reconhecer do outro para conhecermos melhor a nós mesmos.    


Segue o link da cena "Chá", do filme Fearless [O mestre das armas]

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